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Namban, os bárbaros do sul

Escrito por  yvette vieira fts antoinette van den dikkenberg

  

A exposição na Quinta das Cruzes, até o final do mês de Janeiro, reúne um conjunto extraordinário de dezasseis peças, cronologicamente situadas entre o final do século XVI e os meados do século XVII, pertencentes a coleções privadas e institucionais madeirenses, da própria instituição museológica, do Museu de Arte Sacra do Funchal, da Casa Colombo-Museu do Porto Santo, assim como peças cedidas pelo antiquário Jorge Welsh, Works of Art, com sede em Londres e Lisboa.

"A chegada dos portugueses a partir de 1543, primeiro à ilha de Tanegachima, em grandes galeões com os seus canhões de poderoso alcance, iniciarão um primeiro contacto direto com os europeus, numa significativa experiência de globalização.
Os portugueses, com profundas capacidades diplomáticas, procuram o estabelecimento de redes comerciais, servindo também de intermediários entre o Japão a China e outros povos asiáticos.
A expansão comercial mantinha também presente uma expansão religiosa sobre o tema da conversão ao cristianismo que terá na Companhia de Jesus os principais obreiros, tendo o monopólio papal oficial da conversão dos japoneses, até à sua expulsão em 1639.
Em meados do século XVI inicia-se a produção de um conjunto de obras de arte, que revelam uma espantosa osmose entre as técnicas da laca e outras especialidades japonesas, e um ideário e funcionalidade ocidental, sobretudo no designado período Momoyama (1573-1615) e no período Edo (1615-1868), sobretudo na era Kan’ei (1624-1644) e Kambun (1661-1673).
Deve, no entanto, constatar-se que, num conjunto especial de objetos, a representação de portugueses e depois de outros europeus, constituiu uma espécie de imaginário do luxo ou do exótico, que daria particular dignidade ao seu possuidor. Veja-se o caso dos retratos dos portugueses nos biombos, armas de fogo ou máscaras de guerra.
O fascínio na Europa pelas lacas japonesas, levará a uma importação massiva, de cofres, baús, contadores de vários formatos, oratórios, mesas e um sem número de outros objetos que terão nas cortes e dignatários europeus grandes clientes.
Os portugueses conheciam já as técnicas da laca, quer as de produção chinesa, coreana e da região indiana do Guzarate, mas as japonesas ultrapassavam pelos preços concorrenciais e pela qualidade, as de outras nacionalidades”.*

Esta exposição é de significativo interesse por uma razão essencial, como explica, Francisco Clode, director regional de serviços de Museus e Património da direcção regional da cultura, “é muito difícil reunir objectos com esta raridade e importância histórica, são 16 preciosidades de arte namban, são as técnicas e ofício japonês ao serviço do Ocidente. Nós, os portugueses, por termos sido os primeiros europeus que numa experiência de globalização fomos intermediários entre o Japão e China no negócio da seda e da prata, iniciámos um verdadeiro encontro cultural entre o Ocidente e o Oriente. Os objectos serviam sobretudo o mercado de exportação, a maior parte deles, e é desse encontro, dessa osmose, entre a tecnologia da laca e as formas ocidentais, que surge um diálogo que marca a expansão, porque sem esse envolvimento estas peças não teriam sido possíveis”.
No espólio exposto, como sublinha o responsável, “há uma peça muito importante com as armas dos jesuitas, é uma estante de missal que faz parte das nossas colecções e esta a ser investigada por várias universidades japonesas e que até já tem excursões marcadas para algumas análises, porque se tem vindo a demonstrar que se trata de uma obra de grande raridade”.

A arte namban é escassa “por isso é extraordinário que se tenham conseguido juntar 16 obras, porque são peças do final do século XVI e meados do XVII feitas para o mercado ocidental por artistas nipónicos, primeiro para Portugal e mais tarde para a Holanda e Inglaterra, com formas europeias e técnicas japonesas. Temos cofres, polvorinhos onde se colocava a pólvora, baús, oratórios, um chápeu feito em laca e temos também contadores portáteis que serviam para guardar cartas, ou moedas, é o que eu chamo os computadores do século XVI, porque tem pastas onde se podiam arquivar os documentos e serviam para escrever. É preciso não esquecer que os nambanjins, era a designação dada pelos japoneses aos bárbaros que vinham do Sul, ou seja, aos portugueses que foram os primeiros europeus que os japoneses viram usavam roupas estranhíssimas, tinham olhos redondos e bigodes e sairam de um galeão negro recheado de espingardas, portanto, foi uma grande revolução à nossa chegada e criou um enorme furor”.

*extractos de informação gentilmente cedida por Rita Rodrigues, DGARQ/ANTT, Convento de Santa Clara do Funchal, Mçº.13,Cx.49-Doc.47-Carta de partilhas pelo falecimento de Manuel de Freitas Drumond que dá a Maria de Aragão Pereira, viúva do defunto-1625, fls.4,4vº. e 5.

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