Utilizam o físico?
RM: O físico, a voz, as nossas ideias, os nossos discursos e depois partilhámos isso tudo com as outras pessoas. Faze-los pensar connosco ou sem nós isso seria melhor ainda.
São todos actores ou tem diversas áreas de formação artística?
Ricardo Teixeira: Começámos todos na mesma escola o "Ballet Teatro do Porto" e depois seguimos para o conservatório que agora é a escola superior de arte e cinema. Quatro de nós seguiram o curso de interpretação, o Ivo Silva fez dramaturgia.
Acabam por se complementar.
Ivo Silva: Sim e temos pessoas que colaboram connosco.
RM: Temos o Ricardo Peneda, que é da área do vídeo, onde tivemos de pedir algum suporte exterior ao grupo, como somos os cinco mais virados para a área performativa do que o resto, neste caso o universo do tecnológico, nenhum de nós está muito à frente nesse sentido e agora temos também o João Leitão que veio para ficar.
O Silly Season o projecto o que é?
IS: É um concerto. Nós pegámos nessa estrutura e metemo-la no teatro, ou seja, os dois conceitos vivem juntos fundidos em cena, jogados de forma a adquirirem um equilíbrio no espectáculo a ser visto. A partir daqui pegámos na teoria do Fernando Pessoa, o seu quinto império.
RM: Basicamente estamos a dar um concerto que transmite conteúdos não do ponto de vista musical, mas teatral. São conversas, cenas entre nós, coreografias, são muito mais coisas, vastas, menos preocupadas em ser música. E nestas tais cenas, que seriam melodias, nós acabámos por ir buscar o conceito do quinto império, mais concretamente os quatro anteriores, a Grécia, Roma, Cristandade e a Europa que já passaram e necessitámos de um quinto, que é o mito Sebastianista. São flashbacks, uma revisitação daquilo que fomos sendo ao longo da humanidade. Há uma cena em que se pensa que é mais na Europa, outra reflecte mais a ideia de religião e de Deus, depois existem outras que surgem de ideias nossas sobre a história da humanidade, porque inevitavelmente fazemos parte dela. Há sempre este jogo de universalizar o discurso e particulariza-lo ao mesmo tempo. Como é que nos apropriámos dos moldes de um concerto e de repente damos ao espectador o que temos de mais genuíno? Não é o pegar numa guitarra e tocar, mas é partilhar o nosso conceito de concerto teatral.
Silly Season porquê?
RM: Porque pressupõe uma abstenção das ideais mais preocupantes da sociedade. Ao nível de imprensa Agosto e Setembro é o período do "silly season", porque nunca há grandes notícias, não há política, nem temas importantes. O que é fundamental para a sociedade avançar deixa de existir. O mito sebastianista traduzido para os dias de hoje acaba por ser uma silly season. Então somos os "silly season", a banda, só depois é que nos transformámos em grupo de teatro e estamos numa apatia, mas queremos avançar e sair daqui para fora, queremos o quinto império. É o concerto final, como no concurso dos "ídolos" quando um dos concorrentes saí e mostram o vídeo dos grandes momentos da sua vida, é mais ou menos isso, somos a humanidade em silly season, vejam tudo o que fizemos e agora já chega de sol, praia, palmeiras e piscina, há muito para viver para além disso.
Já tem em marcha um novo projecto teatral...
Miguel Cunha: O próximo projecto que estamos a desenvolver, "dark turism", no sentido literal é destino turístico de grandes catástrofes, tipo Hiroxima, Auschwitz, o cemitério dos Prazeres, vamos revistar esse conceito.
O que os levou a criar um grupo num país que não valoriza a cultura?
MC: É dar o nosso contributo. É uma expressão da nossa parte, porque às vezes, somos classificados como uma geração sem princípios, malcriados e não é assim. Também é necessário reescrever a história. Se todos partirmos quem irá ficar daqui a cinquenta ou sessenta anos? Então é mesmo isso, é um grupo de quer trabalhar junto, de pensar nas matérias e divertir-se. É também mostrar todo esse trabalho as pessoas.
Há público então, porque se decidiram continuar é porque ele aparece.
RT: Sim, porque quando começámos ninguém tinha grandes conhecimentos e agora estamos a construir um público que já nos acompanha. Estreámos em Outubro do ano passado e o repusemos em Dezembro em Lisboa, as mesmas pessoas que já tinham ido ver o espectáculo foram ver outra vez e isso é muito gratificante. A sensação que estamos a construir alguma coisa e que temos "adeptos".
Então é falsa a ideia que se propaga de teatros vazios.
RM: É claro que estão vazios comparados com estádios de futebol, mas isso vai sempre a acontecer. A cultura é inevitável na sua vida, na minha e de qualquer pessoa, só que uns tem mais urgência em contactar com esta realidade do que outros. Vamos andando e dando o que podemos ao mundo prefiro dizer isso que nação, mas ao país também, claro, sou patriota e como se poderá ver no espectáculo e falta-me a bandeira de Portugal! (risos) Acho que é acreditar que haverá sempre pessoas que queiram partilhar estes momentos.





