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Os inevitáveis

Escrito por  yvette vieira fts artdesign

 

O Silly Season são uma plataforma de cinco jovens artistas que apresentam espectáculos de teatro pós-moderno contemporâneo. Uma filosofia artística que se reflecte na sua peça de estreia, com o mesmo nome e que pretendem redemonstrar no seu novo espectáculo entre os dias 8 a 14 de Maio no teatro da galeria nº 60, no Chiado em Lisboa, intitulado de "dark turism".

São um novo grupo de teatro em que se diferenciam dos restantes que já existem?
Ivo Silva: Os Silly Season é uma plataforma de artistas, todos diferentes, são cinco elementos, juntámo-nos, porque erámos amigos e partilhávamos as mesmas escolhas artísticas e estéticas. É uma companhia, mas ao mesmo tempo não é, os "Silly Season" sobrevivem para além do espectáculo.

De que forma?
Rita Morais: O espectáculo chama-se "Silly Season". Foi o primeiro que fizemos, nessa altura não sabíamos que iria ser tão positivo, que fossemos expandir este conceito mais largamente nas nossas vidas. O espectáculo, que estreou em Outubro do ano passado, era suposto ser só um, mas como foi possível prolongar esta experiência, decidimos transformar o título que era uma brincadeira no nome do grupo, que tenta fazer arte de todas as formas. Sendo que o teatro é o melhor guarda-chuva para isto, porque para nós, teatro pós-moderno contemporâneo abarca tudo e desta forma nos permite fazer o que queremos dentro desta harmonia interna.

Então o que é o teatro pós-moderno contemporâneo?
RM: É uma ausência total de uma dramaturgia consistente, que pressupõe personagens e unidades temporais, espaciais e de acção. O clássico caí por terra.

Mas, improvisam em palco é isso?
RM: Não tem nada a ver. Temos textos, temos tudo. Em vez do público ser transportado magicamente para uma ficção, como quando esta a ver uma telenovela, estamos constantemente a mostrar o esqueleto do que é as nossas pessoas em cena. Há uma espécie de aproximação perante o que estamos a mostrar ali, havendo contudo uma certa distanciação da vida real, mostrámo-nos a nós próprios a dizer coisas muito mais interessantes do que o nós do dia-a-dia. Estamos a tentar ser mais do que seríamos se não tivéssemos uma oportunidade de fazer teatro. É uma ideia poética, mas ao mesmo tempo concreta.

 

Utilizam o físico?
RM: O físico, a voz, as nossas ideias, os nossos discursos e depois partilhámos isso tudo com as outras pessoas. Faze-los pensar connosco ou sem nós isso seria melhor ainda.

 

São todos actores ou tem diversas áreas de formação artística?
Ricardo Teixeira: Começámos todos na mesma escola o "Ballet Teatro do Porto" e depois seguimos para o conservatório que agora é a escola superior de arte e cinema. Quatro de nós seguiram o curso de interpretação, o Ivo Silva fez dramaturgia.

Acabam por se complementar.
Ivo Silva: Sim e temos pessoas que colaboram connosco.
RM: Temos o Ricardo Peneda, que é da área do vídeo, onde tivemos de pedir algum suporte exterior ao grupo, como somos os cinco mais virados para a área performativa do que o resto, neste caso o universo do tecnológico, nenhum de nós está muito à frente nesse sentido e agora temos também o João Leitão que veio para ficar.

O Silly Season o projecto o que é?
IS: É um concerto. Nós pegámos nessa estrutura e metemo-la no teatro, ou seja, os dois conceitos vivem juntos fundidos em cena, jogados de forma a adquirirem um equilíbrio no espectáculo a ser visto. A partir daqui pegámos na teoria do Fernando Pessoa, o seu quinto império.
RM: Basicamente estamos a dar um concerto que transmite conteúdos não do ponto de vista musical, mas teatral. São conversas, cenas entre nós, coreografias, são muito mais coisas, vastas, menos preocupadas em ser música. E nestas tais cenas, que seriam melodias, nós acabámos por ir buscar o conceito do quinto império, mais concretamente os quatro anteriores, a Grécia, Roma, Cristandade e a Europa que já passaram e necessitámos de um quinto, que é o mito Sebastianista. São flashbacks, uma revisitação daquilo que fomos sendo ao longo da humanidade. Há uma cena em que se pensa que é mais na Europa, outra reflecte mais a ideia de religião e de Deus, depois existem outras que surgem de ideias nossas sobre a história da humanidade, porque inevitavelmente fazemos parte dela. Há sempre este jogo de universalizar o discurso e particulariza-lo ao mesmo tempo. Como é que nos apropriámos dos moldes de um concerto e de repente damos ao espectador o que temos de mais genuíno? Não é o pegar numa guitarra e tocar, mas é partilhar o nosso conceito de concerto teatral.

Silly Season porquê?
RM: Porque pressupõe uma abstenção das ideais mais preocupantes da sociedade. Ao nível de imprensa Agosto e Setembro é o período do "silly season", porque nunca há grandes notícias, não há política, nem temas importantes. O que é fundamental para a sociedade avançar deixa de existir. O mito sebastianista traduzido para os dias de hoje acaba por ser uma silly season. Então somos os "silly season", a banda, só depois é que nos transformámos em grupo de teatro e estamos numa apatia, mas queremos avançar e sair daqui para fora, queremos o quinto império. É o concerto final, como no concurso dos "ídolos" quando um dos concorrentes saí e mostram o vídeo dos grandes momentos da sua vida, é mais ou menos isso, somos a humanidade em silly season, vejam tudo o que fizemos e agora já chega de sol, praia, palmeiras e piscina, há muito para viver para além disso.

Já tem em marcha um novo projecto teatral...
Miguel Cunha: O próximo projecto que estamos a desenvolver, "dark turism", no sentido literal é destino turístico de grandes catástrofes, tipo Hiroxima, Auschwitz, o cemitério dos Prazeres, vamos revistar esse conceito.

O que os levou a criar um grupo num país que não valoriza a cultura?
MC: É dar o nosso contributo. É uma expressão da nossa parte, porque às vezes, somos classificados como uma geração sem princípios, malcriados e não é assim. Também é necessário reescrever a história. Se todos partirmos quem irá ficar daqui a cinquenta ou sessenta anos? Então é mesmo isso, é um grupo de quer trabalhar junto, de pensar nas matérias e divertir-se. É também mostrar todo esse trabalho as pessoas.

Há público então, porque se decidiram continuar é porque ele aparece.
RT: Sim, porque quando começámos ninguém tinha grandes conhecimentos e agora estamos a construir um público que já nos acompanha. Estreámos em Outubro do ano passado e o repusemos em Dezembro em Lisboa, as mesmas pessoas que já tinham ido ver o espectáculo foram ver outra vez e isso é muito gratificante. A sensação que estamos a construir alguma coisa e que temos "adeptos".

Então é falsa a ideia que se propaga de teatros vazios.
RM: É claro que estão vazios comparados com estádios de futebol, mas isso vai sempre a acontecer. A cultura é inevitável na sua vida, na minha e de qualquer pessoa, só que uns tem mais urgência em contactar com esta realidade do que outros. Vamos andando e dando o que podemos ao mundo prefiro dizer isso que nação, mas ao país também, claro, sou patriota e como se poderá ver no espectáculo e falta-me a bandeira de Portugal! (risos) Acho que é acreditar que haverá sempre pessoas que queiram partilhar estes momentos.

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