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No pico mais alto de portugal

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Existe uma pequena editora, a companhia das ilhas, fundada por Carlos Alberto Machado e Sara Santos, na ilha do Pico, nos Açores. É um sonho quase utópico que procura dar uma maior visibilidade aos novos autores portugueses de ficção, mas que também publica poesia e teatro.

Qual era necessidade de criar uma editora no arquipélago dos Açores?
Carlos Alberto Machado: Bom, há necessidade de editoras independentemente dos locais onde estamos. Felizmente existe muita gente, muitos autores por editar. Há uns mais conhecidos, outros menos, isto em termos gerais. Nos Açores, em particular, sente-se mais a falta de editoras com um espectro mais alargado, que não apenas publicações sobre temas açorianos, sobretudo escritores locais, já que, as duas que existem normalmente nunca se dedicam à publicação de novos autores. Também há razões pessoais e outras mais genéricas, mas a vida das editoras é isto, aparecem e desaparecem.

Mas, quais são os desafios de uma editora como a companhia das ilhas?
CAM: Não há desafios muito concretos, existe é um conjunto de autores açorianos que não estão editados e que nós podemos editar. É um projecto que segue em paralelo um com o outro. Editámos mais poesia e teatro, coisa que não é muito comum nas editoras nacionais e vamos manter essa linha. Este ano já vamos iniciar outras áreas. No fundo quando alguém se lança numa editora tenta diferenciar-se dos outros projectos, não para ser distinto, mas porque as pessoas são diferentes e tem ideias díspares sobre os livros que acham que são precisos e que são interessantes para oferecer aos leitores.

Abordou que publicam novos autores, mas é apenas os açorianos ou aparecem escritores fora das ilhas?
CAM: Não temos preferências etárias. Nos Açores e não só, mas aqui em particular, as duas editoras que são relativamente recentes privilegiam os consagrados. Nós pensámos que a oferta deve pautar-se pela qualidade e daí tanto podemos editar um autor com um nome feito, como também um que esta a aparecer, ou que tenha pouca coisa publicada. Vamos iniciar a publicação de um revista só com autores açorianos, dirigida exclusivamente ao arquipélago e que privilegia os ficcionistas relativamente jovens com o máximo de 40 anos, mas com a particularidade de não terem obra publicada, ou pelo menos quase nenhuma. Esta é uma vertente importante. Em termos nacionais já editámos alguns autores, nomeadamente duas escritoras, cujos livros foram os primeiros a serem editados, mas não fazemos questão que sejam apenas os novos.

Os Açorianos, por serem ilheús, são preferencialmente poetas?
CAM: Não me parece, porque dos textos que se vão publicando há muita ficção, falei da revista cujo conteúdo optámos por não incluir poesia, mas a maioria escreve ficção, embora tenha havido grandes poetas açorianos. Não sei se há uma diferença muito grande, não posso afirmar de todo isso com segurança, não sei se a região difere do resto do território nacional nesse aspecto, diz-se que Portugal é um país de poetas, se calhar é verdade, porque existe muito boa poesia no nosso país.

 

 

Mas, em relação aos poetas açorianos não nota nenhuma diferença?
CAM: Do que conheço, não. Há bons e maus como em todo o lado, existem pessoas que escrevem cá, outros com um trabalho já feito, é difícil afirmar algo tão contundente. Se calhar há gente que escreve e nós não conhecemos, recebemos imensas propostas que nos chegam por correio e por email, um pouco por todo o lado e vamos apreciando esses trabalhos, por isso, não posso dizer com muita certeza se há diferenças, existem sim, em termos de quantidades, a região tem 250 mil habitantes e o todo nacional tem 10 milhões.

Os Açorianos leem muito?
CAM: É o mesmo tipo de questão, os dados nacionais não são diferentes dos regionais, embora me pareça pelo contacto que tenho aqui, porque isto de viver numa ilha é só viver apenas numa, no fundo uma pessoa que vive em Lisboa conhece tanto da realidade das nove, como eu das oito restantes, haverá nas ilhas com menos população menos hábitos de leitura. Nas restantes com alguns séculos de vida os níveis de leitura serão superiores. No fundo não será diferente das zonas litorais do continente em relação ao território mais interior afastado dos centros urbanos. Temos um país homogéneo com essas diferenças entre o meio rural e as cidades.

Em termos de gosto dos genéros literários há diferenças?
MAC: O que se nota aqui, como também em algumas regiões do continente é uma maior atractividade pelos autores locais, se for a uma pequena feira do livro que existe por aqui, as pessoas tem tendência para procurar autores ou temáticas açorianas, quer em termos ficcionais, documental ou histórico. Penso que hoje em dia o acesso fácil a internet e a televisão por cabo aproxima as pessoas e tudo o que se vai falando nesses meios é mais ou menos conhecido e o resto fica escondido algures.

Também publica ensaios de teatro ou literatura dramática?
MAC: Até agora só editámos peças de teatro, não uma colecção só dedicada ao tema e não temos ensaios.

Mesmo assim trata-se de uma vertente inusitada para uma editora.
MAC: É verdade em Portugal há uma editora com alguma regularidade a "Cotovia", ou os "Artista Unidos" que é feita em parceria.

Mas, porquê essa escolha?
MAC: Fiz teatro durante muitos anos, escrevi peças, tenho esse gosto particular, é um pouco pessoal digamos assim.

Focou as novas vertentes que pretendem colocar em práctica na editora, para além da revista, reparei que tem cursos de escrita.
MAC: Começámos por querer fazer, mas já não o fazemos, porque aqui não há mercado. Somos uma micro-empresa quase familiar e inicialmente quando constituímos a empresa tínhamos essas vertentes que se pode ver no site e uma delas é a escrita, como temos de pagar alguém para vir do continente, as passagens e a estadia, tudo isso torna complicado ter essas actividades com regularidade, fizemos apenas uma, que correu bem. A "companhia das ilhas" dedica-se a edição de livros, de uns notebook exclusivos com motivos açorianos e fazemos alguns trabalhos pontuais de comunicação e marketing com algumas entidades da região.

Qual é o feedback da página de internet em termos de venda de livros?
MAC: É fraca. A ideia de temos de falar com outras pessoas, só se vende online livros nos sites das grandes empresas tipo porto editora, fnac, etc. Ou bestsellers e livros escolares, porque o mercado nacional é desequilibradíssimo, só se vende o que aparece na televisão, ou nas revistas cor-de-rosa. Mas, conheço pessoas com outras páginas idênticas e que vendem muito pouco.

É um sonho?
MAC: É, estas coisas pequenas acabam sempre por serem o sonho, um pouco utópico.

Mas, é viavél ter uma editora tão pequena num mundo editorial onde as empresas se aglomeram em grupos?
MAC: Não sei se é viável, a única certeza que tenho é que se não fosse porque existem umas 30, 40 pequenas editoras o público ficava sem liberdade de escolha, porque as grandes não editam a maior parte da literatura que se publica neste país, recusam-se simplesmente. Tal como na poesia, ouvem falar dela e fecham a gaveta, portanto é um problema de liberdade. Do ponto de vista estrictamente económico não é viável, não ganhámos, mas também não perdemos dinheiro, mas não é esse o nosso objectivo. O que pretendemos é publicar um livro e vende-lo o mais possível para poder imprimir o próximo. Mas, acho que esta pressão que as pequenas editoras fazem sobre as grandes é saudável.

Qual é o próximo passo, para além da revista?
MAC: O próximo passo é continuar com as colecções pequenas, vamos manter mais ou menos o mesmo ritmo de publicação e vamos lançar mais duas, uma chama-se "terceira margem" de ensaios de natureza, sobre literatura, estética, política, enfim e a outra intitula-se "mundos", genericamente designa-se por literatura de viagem, embora não goste muito desta expressão. Em Março, sairão dois livros e vamos reforçar ainda, a componente açoriana.

Em média quantos livros imprime por edição?
MAC: Em média imprimem-se 300 exemplares, o que para uma editora pequena é bom, quando se trata de poesia e teatro. Mesmo estes números podem não estar correctos estamos sempre a tentar fazer as contas e não é fácil. (risos)

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