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O guerreiro ambiental

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Eugénio Sequeira é engenheiro agrónomo e esteve ligado a várias universidades portuguesas como docente. Destacou-se pelas duas vezes que ocupou a presidência da Liga para a Protecção da Natureza (LPN), entre 1996 e 1999 e entre 2005 e 2009. Deu impulso a projectos-piloto emblemáticos da LPN, como o de compatibilização da agricultura com a protecção de aves em Castro Verde, comunmente apontado como um caso de sucesso. Foi ainda entre outros cargos, Coordenador do Grupo de Trabalho Agricultura/Ambiente do Instituto Nacional de Investigação Agrária, tendo participado na preparação da reunião do Rio de Janeiro (Agenda 21) e na elaboração da Convenção de Combate á Desertificação, sendo actualmente representante das ONG de Ambiente Portuguesas na Comissão Nacional do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável(CNADS).

Quanto é que vale a natureza em Portugal?
Eugénio Sequeira:A sobrevivência do homem. O nosso futuro e dos nossos filhos.

Como membro do CNADS referiu que há muitos estudos sobre os solos em Portugal que não foram tidos em consideração para as leis sobre ordenamento do território nacional.
ES: A lei de bases do ordenamento do território só é válida para o urbanismo e não tem nada a ver com os solos, tentou-se resolver esse problemas das cidades, mas sobre a salvaguarda deste item não há uma palavra sobre a ocupação dos solos pelas barragens que não servem para nada, que não vão ter água. As melhores terras estão debaixo de água, e quando se faz uma barragem como a de Aguieira a população só teve uma solução, emigrar toda para a Suiça. Outro dos problemas é que os bons solos para o gado, em vez de cabras ou vacas, tem como única solução económica o eucalipto. O ordenamento é vital, mas não é só onde se põem as casas, é também o sítio para a agricultura e para a floresta. E se a queremos salvar não estou a dizer que se acabe com os eucaliptos, mas antes de os plantar é necessário ordenar primeiro, porque em caso de incêndio é necessário uma zona de carvalhos e uma
área aberta para diminuir a velocidade do fogo, ou se houver ribeiras tem de ser ladeadas de freixos. No topo, na encosta, ou no cume tem de existir uma zona de pastagem com algumas árvores isoladas e de um lado e de outro tem de haver carvalhos antes de plantarem eucaliptos outra vez, porquê? Se o fogo vem de baixo para cima, chega lá em cima e perde-se antes de chegar as árvores, porque tem atrás de si terreno aberto, funcionando como contra-fogo para não arder mais nada. Se o fogo vier de cima até o vale só atinge os eucaliptos e acabou, e para isso tem-se que ordenar o território. Para fazer este trabalho tem de haver pessoas para a agricultura para manter o gado nas zonas abertas, tem de haver escolas e trabalho para manter os jovens para que não se vão embora e só fiquem os velhos que mal conseguem manter esses terrenos abertos.

Então os relatórios da comissão nacional do ambiente não adiantaram nada junto das forças políticas?
ES: Não, porque não temos força, eu fiz parte da comissão e não consegui salvar nenhum metro quadrado de terreno para uma rede ecológica. Mas, o desinteresse não é só da hierarquia política é de toda a gente. Repare, 30% do PIB provinha da construção, agora acabou tudo mas ficaram as casas vazias, existem neste momento 1 milhão e 200 mil habitações e sabe quanto é que os bancos portugueses devem lá fora dos empréstimos que concederam às empresas de construção? 180 mil milhões e a pergunta é quem é que vai pagar? E julga que parou a especulação? Estou como testemunha em dois processos em tribunal, porque é preciso parar com esta loucura.

Mas, neste momento já se assiste a um retorno a agricultura, através de iniciativas privadas, ou públicas com as hortas camarárias.
ES: Sim, mas onde é que encontra a pêra rocha, ou morangos como os nossos? Os queijos, mesmos as carnes, como o porco bísaro, ou como a posta mirandesa, já quase não se encontra. Porquê é que Sintra que tinha o queijo saloio e uns morangos maravilhosos, agora não os tem? Quando pedi para os agricultores voltarem para essas tradições iam-me batendo, porque o que queriam era vender os terrenos para fazerem construções para os turistas, diziam-me que a terra dava muito trabalho. Eu passei toda a vida de enxada a cavar buracos e sei o que é duro, a trabalhar no barro, e se trabalhassem assim não andavam com tantas doenças.

A Quercus, o ano passado, atribui-lhe um prémio pelo trabalho de toda uma vida em prol do ambiente e não só, mas também foi agraciado com outras distinções fora de Portugal e afirma que apesar de tudo isto, que não lhe reconhecem o mérito pelo
trabalho desenvolvido.
ES: Em Portugal não, lá fora sim, deram-me um prémio pelo meu protótipo, foi o único português, que é uma máquina de fazer solo, que ainda tenho, porque não vendi nenhum, já que não interessa.

A mudança passa então pela educação?
ES: Sim pela formação, mas é preciso também que deixem as pessoas qualificadas estudar e investigar.

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