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As estórias abesonhadas

Escrito por  yvette vieira ft direitos reservados

Abordei um dos livros do escritor moçambicano Mia Couto.

O Mia Couto na sua trajectória gosta muito de escrever contos. E muitas vezes este estilo literário é considerado por muitos menos válido, em oposição ao grande romance.
Mia Couto: Isso é um conceito não criado por um escritor certamente. Não são os autores que pensam assim. É o mercado, são as editoras. Criar uma hierarquia entre genéros literários é uma ofensa para a literatura.

Utiliza também os contos, porque tem a ver com a cultura africana, uma tradição oral de se contarem histórias como estas abessonhadas.
MC: Isso é verdade, mas não é determinante. Eu acho que em todo o lado se fazem contos, todos os povos produzem histórias e portanto se eu tivesse nascido no Alasca, ou na América do Sul eu seria movido com a mesma intensidade para escrever contos.

Este livro é também sobre a esperança? Porque foi escrito após a guerra colonial e civil em Moçambique.
MC: Sim, por isso se chama abessonhado, porque é uma obra que congrega o sonho e a benção, era isso que a gente sonhava que ia acontecer. De facto nos vinte anos seguintes, em 1992 foi quando acabou a guerra civil, houve um período muito feliz, de paz efectiva. Agora, infelizmente, voltaram as nuvens negras, mas acho que vamos ser capazes de superar isso.

Outra das características dos seus livros é a linguagem são as palavras novas que inventa. Sei que faz parte do universo africano, mas quando começou a escrever deve ter havido um impacto, porque inventar palavras não é algo fácil junto de editoras, ou de algum público?
MC: Em Moçambique houve alguma reação, sim. Mas, não foi algo feito novo, não fui eu que iniciei esse processo, esta lá, se os escritores não inventam palavras, inventam uma forma de contar uma história que é só deles e a sua própria linguagem. Acho que não sou tão pioneiro asssim, o Claudino Vieira tinha feito o mesmo em Angola, ou o Ascênsio de Freitas em Moçambique, eu tive muitos mestres.

As palavras que inventam são muito musicais, é propositado ou não?
MC: Não, eu acho que tem a ver com a poesia que quer ser música.

Nestas histórias há muita magia, acontecimentos extraordinários, existe quase uma paralelo com a literatura sul americana, porque por norma, a literatura europeia, em particular em Portugal, não possui muitos autores que abordem estas temáticas.
MC: Não sei se isso é completamente assim, mas a América Latina, a África e a Ásia provavelmente estão mais próximas, são zonas onde não se esmagaram essas culturas da oralidade em que as pessas falam por metafóras e em que as pessoas contam histórias tão facilmente como se fosse um argumento escrito. Não tem a ver com a falência da imaginação do escritor europeu, tem a ver com um certo predomínio de um tipo de linguagem sobre outro.

Destas estórias abesonhadas tem alguma preferida?
MC: Não me lembro, é muito difícil dizer isto, mas acho que o “cego estrelinho” toca-me muito, porque mais do que vez gente cega falou como este conto os comoveu, uma vez, foi a um centro dos deficientes de guerra, não sei se chama assim hoje em dia, e para eles o “cego estrelinho” era um dos colegas, é uma história que me comove muito, porque é como um cego pode “ver” muitas coisas, não é sobre deficiência, é muita coisa que se pode ser compensada.

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