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O apocalipse nau segundo Rui Zink

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Este livro conta a história de uma família banal, perante a iminência do fim do mundo. Um retrato da vida conjugal, do seu desencanto, com uma certa crueldade e ironia à mistura. É a vivência da não tão sagrada família descrita pelo autor.

O apocalipse nau foi inspirado no fim no mundo anunciado por causa do vírus informático de 2000?

Rui Zink: Sim, se houve um género seria o livro do milénio. Ele estava lá pelo menos a quinhentos anos. E de repente nós estamos no fim do milénio, o que tem uma grande força imaginária, o livro insere-se ao nível da carapaça num subgénero de livros sobre a ameaça do milénio, à volta desse fenómeno atraente e tenho a certeza que ele terá tido cerca de três mil produtos em todo o mundo, entre discos, filmes e livros. Este é mais um. A diferença a existir é ao nível do modo, como se aproveita esse truque, esse pequeno gadget.

A morte preocupa-o? Fala muito sobre ela neste livro.

RZ: Não sei se a morte me obceca, é aquele fim da história que a todos nos vai acontecer e sabemos disso. Ao longo da vida vamos tendo diversas percepções da morte. Quando se é criança a morte é imaginária, é um papão que lá está. Quando se é adolescente ou se é invencível, ou escrevemos muito sobre a morte. Os jovens escritores põem muitos mortos nos seus livros. Quando não sabemos o que fazer a personagem matámo-la. E acho que é o que Deus faz as pessoas, quando não sabe o que mais lhe fazer, mata-as. Mas, a morte para um escritor é a solução fácil, quando não sabe o que fazer. Eu gosto de ver as minhas personagens viver. A minha relação com a morte é saudável, tenho medo dela. Tenho mais medo que aconteça aos outros, do que a mim. E é uma coisa estranha, nós sabemos que existe, sabemos as regras do jogo, mas quando chega a nossa vez queremos alterar as regras do contrato. Isso acho interessante. Agora estou a entrar na idade em começo a estar mais próximo da morte do que do nascimento.

E encara isso com tranquilidade?

RZ: Gostava de ser mais novo (risos). É muito desagradável para mim saber que daqui a 10 anos tenho sessenta anos. E que mais cinco, sessenta e cinco. As pessoas dizem-me, não pareces da tua idade, pareces mais jovem. Mas, a verdade é que nós temos mais essa noção que uma pessoa pode esticar com saúde até os anos, mas a partir daí estamos para os outros na categoria do velho. Mesmo que sejamos velhos-jovens. Os riscos de doença psíquica já são grandes. E mesmo com a minha idade, ou seja, este ano faço cinquenta, o que comecei a ver é que vou mais a funerais do que casamentos e começa a ser trivial ter a informação que amigos ou familiares que estão doentes, com cancro, com isto ou aquilo. É trivial ter amigos que morrem. E é muito estranho perceber que o adolescente com leucemia é uma tragédia, mas um homem de 50 anos descobrir o mesmo é uma chatice. Há uma mudança.

Falando das personagens do livro, parece-me que apesar de todos os personagens usarem de uma linguagem muito assertiva, o Jorge é o que tem mais de si?

RZ: Eu acho que todos. O escritor é o pai de todas as personagens. É preciso o autor cortar um bocadinho do seu sangue para alimentar todas as personagens. Se não der esse sangue parece oco. Isto é como uma peça de teatro, este texto para começar passa-se num espaço de algumas horas. Passa-se quase todo num espaço fechado que é a casa do casal, é uma espécie de sagrada família. O Jorge é o personagem com quem eu simpatizo mais, porque é o perdedor. Quando pus o Vítor que é uma pessoa irritante, o gajo com sucesso, também me projectei nele, só que projectei a irritação que devo causar a algumas pessoas. O gajo a quem corre tudo bem, muitas viagens, a vida é fácil, dinheiro, fama e mulheres. E portanto, tenho um truque na maior parte dos meus livros que é a pessoa em que mais estou é no mau da fita que, aquele onde o leitor nunca via procurar o autor. Neste caso, o mau da fita é só execrável e o Jorge é simpático, não só porque é o que mais acompanhamos, como também é a vítima. Ele é muito interessante, mas a yvette devia perguntar-me, mas onde é que foi buscar o modelo para esta vítima?

 

 

Rui Zink, onde é que foi buscar o modelo para esta vítima?

RZ: O modelo para esta família é poder ser chamada de sagrada família...

Considerou esse título antes do apocalipse nau?

RZ: Ainda coloquei essa hipótese. A inspiração foi a última ceia, que se repararmos bem, podemos ver a Helena que é um misto de Maria Madalena e Maria, que é uma mãe e uma esposa. Não é nem muito fiel, porque engana o Jorge com o ex-marido e mesmo que não vá para a cama com o Vítor, vê-se que o respeita mais do que o Jorge, que é o chato do marido. Eu vi isto acontecer, é muito chato uma mulher o fazer e ás vezes fazem isso inconscientemente, rebaixar o marido e expressar a admiração sobre os outros. Ah, se fosses mais como o Toino. E queres beber um copo, Jorge? Não que ele não pode beber, faz-lhe mal a saúde, ele não tem a tua compleição. As mulheres tem esta crueldade sobretudo as casadas. E o Vítor é uma espécie de Espírito Santo e Jorge é um são José, um modelo para todos os cornos mansos do mundo. Vamos ter um filho, mas ele não é teu e vais cuida-lo como se fosse teu. E São José diz está bem. E há uma pomba, o espírito santo, é um fantasma.

E Deus aqui é o mestre da história?

RZ: Eu acho que aqui pode ser Deus, ou o Diabo, ou a pessoa que está a escrever a vida.

É porque afinal engana toda a gente.

RZ: Mas, eu acho que é essa a piada. Nós andamos nesta vida para ser enganados. Isto é a diferença entre o discurso literário e o discurso do quotidiano. Uso as mesmas palavras no quotidiano, só que no livro expresso coisas diferentes. No quotidiano, nós dizemos, eh pá eu não ando aqui para ver os outros. O prazer da leitura é andar por ali para ver os outros. E depois, no quotidiano dizemos, eu não vim para ser enganado. E o leitor quando lê o livro quer ser enganado. A pessoa que nasce, quando aceitou o contrato de ser viva, ela esta aqui para ser enganada. O que acho que prefiro ser engano pelo mestre, por Deus, ou pelo diabo, do que por um engenheiro, ou por um carteirista qualquer. Eu quero ser enganado pelas forças da vida. É ser enganado quando? Quando digo que não vou apaixonar-me e apaixonar-me mais. A vida é uma sorte e interpretamos a minha vida é uma desgraça, nunca mais me acontece nada de bom, nem ganhamos a lotaria. A alegria da vida é o desapontamento, é esta sucessão de desapontamentos maus. E lamenta-se que as pessoas não tem o fim do mundo com que sonhavam, mas primeiro nos meus livros, raramente uma pessoa morre. Desde o meu primeiro livro, o Hotel Lusitano, há 25 anos, eu prometo violência, mas depois nunca ofereço. O que eu prometo cumprir é uma viagem, uma montanha russa. O que não prometo na montanha-russa é que haja uma explosão.

Neste livro, o filho pode ser Jesus. Pedro é um filho que tem uma dificuldade. A Sofia, a enfermeira, pode ser uma jovem seguidora como Maria Madalena, sem a malícia. A mãe é a mistura que já falei, é a mulher que domina. O Jorge é o homem preterido, como São José, que não é escolhido. O homem que não é objecto de amor. Há uns anos tive uma experiência chocante, fui uma mulher que disse, vai buscar uma cerveja para este homem. E no momento em que ele foi buscar a bebida, ela atira-se a mim e eu fiquei em choque, porque a minha solidariedade foi toda para ele. E depois acabei por usar essa história para aqui. Chocou-me um pouco, e não sou contra o adultério, acho que faz parte da vida, mas implica respeito. (risos). Eu pelo menos quando engano a minha mulher faço-o com muito respeito e carinho por ela, e espero que quando ela me engana que faça o mesmo. A ideia de uma mulher em enganar o marido é para aparecer mais bem- disposta em casa. Vale a pena se voltar para casa, mais simpática e agradável, por mim nada contra. A vida curta.

A linguagem usada neste livro é muito coloquial, mais próxima dos jovens, é propositado?

RZ: Os meus mestres, os que eu gosto, são aqueles que conseguem dizer coisas complicadas de forma simples. Gosto do Calvino que faz isso. Gosto do José Gomes Ferreira que também faz isso. Gosto muito a ideia de conseguir comunicar ideias complexas e até difíceis, até do senso comum, comunica-las numa linguagem mais possível simples. É evidente que gostava que o livro chegasse aos jovens, mas quando escrevi este livro eu tinha 35 anos e estava mais próximo da juventude e neste momento já não estou.

Com 50 anos escrevia este livro de forma diferente?

RZ: Dificilmente o conseguiria escrever porque os livros são fruto da apetência do momento. Mas, não acho que o escreveria de forma diferente, eu deixava-o como está.

Mas, os escritores por vezes, com um certo distanciamento olham para a obra e conseguem melhora-la.

RZ: Sim, eu faço isso. Eu todos os anos costumo reeditar os meus livros. Agora, fiz isso ao Hotel Lusitano, mas eu não fui alterar um livro que escrevi aos 25 anos, corrigi pequenas coisas. Ao nível da linguagem tento fazer uma pequena reedição do texto, tento melhorar, mas dai até mudar as ideias não. Se eu fosse reescrever este livro, escrevia outro. Mas, eu gosto como está. As ideias são aquelas que queria pôr naquela altura e portanto mais nada a acrescentar, nem prefácio, nem mais capítulos. Eu gosto desta estrutura de espaço teatral. Espécie de iglo, num espaço fechado, com o máximo seis personagens em movimento compacto. E depois há um locutor de futebol, que é um diabrete que comenta os pequenos dramas quotidianos e o faz como se fosse um jogo de futebol. E o gadget aqui era que o mundo ia acabar, porque o que narrador dizia ao leitor ainda o que poderia sentir, porque estava á quatro anos desse evento. É evidente que as pessoas sabem agora, que o mundo não acabou. Mas, por outro lado, o mundo acaba todos os dias para toda a gente. Se calhar agora se reedita-se o livro não punha a data de 1999, mas sim de 2020 para ajudar ao frisson. Ou então, 2012 porque andam agora a dizer que é quando o mundo acaba. O interessante deste livro, fora esse truque do fim do mundo, é que não se passa nada, a minha arte, o meu esforço aqui, é manter interessado durante 200 páginas o leitor só com a linguagem, porque o que acontece são cenas do quotidiano, do banal. É cenas da vida conjugal, citando um título do Igmar Bergman. Mais banal que isto não há. O pai que cobiça a namorada do filho, porque o Jorge está vagamente apaixonado por ela. É um lugar- comum muito recorrente em várias histórias, às vezes dá bronca, rouba mesmo a namorada ao filho. O que também gosto neste livro são os diálogos que são sérios, pesados e duros e um narrador que é cómico. O efeito agridoce. A doçura cómica do narrador que é um diabo, mas acabamos por simpatizar com ele e a dureza da relação das personagens

O que esta a fazer no dia 31 de Dezembro de 1999?

RZ: Boa pergunta, se pergunta-se o que estava a fazer no dia 25 de Abril de 1974? eu sabia responder. Não me lembro. Não faço mesmo a mínima ideia (risos).

Mas, tinha a certeza que o mundo não ia acabar?

RZ: Eu tinha “inside information” dos meus espiões de que o mundo não ia acabar, era só fumaça. O que eles me disseram é que o mundo não acaba em 2000, mas que o FMI vinha aí em 2011. Não havia volta a dar. Não vêm o fim, mas vêm o Fundo Monetário Internacional.

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