Mas, fostes tu a executar os moldes e criar tudo, ou foi através de uma empresa do sector?
LP: Foi tudo feito e executado por mim. Foi tudo feito a mão. Fui esculpido como se fosse uma escultura, com uma espátula. Elaborei o design até ao processo de concepção.
Quantas horas investistes neste processo?
LI: Muitas horas. O processo de secagem era o mais demorado, porque levava muitas camadas de látex. Cada corpete demorava cerca de quatro dias para estar terminado. Fora a parte em tecido, que é toda varada como um corpete normal, que demorava cerca de dia e meio. O látex era depois trabalhado sobre esse tecido.
A palete de cores é muito escura, explica-me o porquê de esta aposta?
LP: Escolhi um tom mais negro dentro dos pretos, porque a apresentação exigia uns tons mais sóbrios, mais cromáticos. Como o tema é a reciclagem, o tom que se obtém de trabalhar materiais reciclados também acaba por ser o negro. O preto, por outro lado, é associado a uma forma mais formal de vestir e isso também esse tipo de pensamento esteve associado ao conceito.
Qual foi o resultado desse apresentação em Milão?
LP: Foi muito positivo, estou com projectos em mãos para alguns clientes. Não posso falar muito, porque ainda estão em negociações, mas o feedback foi muito positivo e se tudo correr bem, estarei em Fevereiro em Veneza.
Qual é a formação que tens para estas diversas vertentes profissionais?
LP: Na moda a única formação formal que tenho provém do que aprendi com a minha mãe. Ela já trabalhou com alfaiates conhecidos e diversos estilistas, então todo o acompanhamento que tive desde que nasci foi através dela. Comecei desde muito novinha, ela tinha-me a mim e as minhas irmãs sempre no ateliê. A nossa curiosidade natural infantil fez-nos desenvolver e acompanhar todo o processo de confecção de uma peça de vestuário. Aprendemos a fazer todo o tipo de moldes, de confeccionar todo tipo de roupas e a partir dessas bases criar e transformar. Foi uma escola de vida. Para além disso, tenho formação em artes, estudei design de produto. Ainda fiz um curso de organização e gestão de eventos, em maquilhagem e em marketing que é valioso para crescer dentro do negócio. Tento fazer constantemente reciclagens e manter-me actualizada.
Sim, porque eu reparei que tudo é um complemento. Há uma teatralidade inerente. Tu crias as roupas, a maquilhagem e o cenário.
LP: São tudo complementos das diversas fases que foi juntando ao longo da minha vida. Também fiz teatro que ajuda. A escolha das cores também tem essa vertente teatral, porque uma palete de tons tem um significado, outra tem uma interpretação completamente diferente.
Fala-me um pouco agora da tua experiência no Portugal Fashion?
LP: Eu considero o PF um prêt-à-porter, uma mostra mais casual, mais elegante, mais fácil e acessível, mas não tão completo como se vê no exterior em termos de criadores de moda, como o Mugler, Valentino e Versace. São colecções mais vestíveis, embora a palavra não exista, são peças que se podem usar no dia-a-dia do que propriamente de alta-costura. Estive presente nesse evento como repórter fotografia, mas espero para ano poder participar como jovem criadora.
Há diferenças em termos de um PF e uma semana da moda em Milão?
LP: Existem muitas. A principal diferença é em termos de vestuário e as pessoas que convivem neste tipo de eventos. Cá são mais convencionais na forma de vestir, temos um lado mais simplicista e mais sóbrio. Em Milão tudo tem um lado mais visível, que se nota ao olhar, um pouco mais espampanante. Vive-se muito esse lado teatral, por causa também dos criadores que participam, o Alexander Mac Queen,Thierry Mugler que são muito diferentes em termos de apresentações das suas colecções, são muito visuais. Também se sente a necessidade de acompanhar esses criadores, enquanto cá é um estilo mais prêt-à-porter. Lá fora apresentam-se colecções mais fora do comum, do normal.
No futuro queres manter estas duas vertentes em paralelo?
LP: Sim, faço sempre as duas em paralelo. Uma completa a outra. A oportunidade de mostrar o meu trabalho na moda surgiu mais depressa. Estou a crescer mais nessa área do que na fotografia. Ou então já cresci tanto no mundo da imagem que não noto tanto esse desenvolvimento. Mas, quero manter essas duas vertentes, unidas ou separadas, sempre, porque são algo de que sempre gostei. São o reflexo do meu sonho, da minha paixão por fazer tanto na moda, como na fotografia. Estão as duas interligadas. Eu imagino o design gráfico de uma peça dentro de um ambiente fotográfico e daí as duas se complementarem e não conseguir desliga-las.
Tu abordas muitas vezes no teu trabalho, o mundo encantado, define-o.
LP: É um mundo em paralelo, que não será tão comum, do que é o normal para as pessoas, em que as roupas são diferentes. Vive-se mais o interior. Expandir mais o interior para o exterior. Hoje em dia evita-se a fantasia, mantém-se tudo dentro da normalidade. É um pouco do mundo de tolkien e uma mescla de várias contos e fábulas. Eu misturei tudo isso e exteriorizei. Olhei para a própria natureza que em si que é tão diversificada e tão bela e nós mantemos esse lado tão simplista e permanecemos agarrados a coisas tão básicas, em regras tão normativas. A natureza é tão divergente e diversificada, mesmo nos próprios animais e o ser humano limita isso tudo. Procuro tornar tudo isso mais encantado, se calhar mais bonito, sem ser o cinzento comum.
Mas, tu já tens um ateliê próprio?
LP: Sim, tenho um onde, crio, confecciono e envio para os clientes. Eles dirigem-se até lá, onde faço todas as medições e a apresentação final. Não pretendo ter uma loja aberta ao público, porque não pretendo ter artigos massificados. Gosto de apresentar colecções em que cada artigo seja único,





