Um olhar sobre o mundo Português

 

                                                                           

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O arquitecto do corpo

Escrito por  yvette vieira fts desenquadrado

Começou uma carreira na moda em 1992 em paralelo com os figurinos para teatro e a cenografia. André Correia criou um nome como estilista que é sinonimo de qualidade e de grande criatividade aliada ao extremo domínio das técnicas e dos materiais. Vinte anos de um percurso que ainda é reflexo do melhor que se faz made in Portugal.

Qual é o balanço que faz a mais de vinte anos de carreira?

André Correia: Acho que Portugal tem algumas condicionantes nesse aspecto, há algum espaço para uma certa precursão de uma carreira. Tive o privilégio de ainda ser olhado dentro de uma determinada região, mas como não estou situado num grande centro como Lisboa ou Porto é-me sempre mais difícil afirmar-me. Tive a oportunidade de fazer parte de alguns eventos da área da moda, como o Portugal Fashion e não só, onde dei a conhecer alguns trabalhos meus. Nessa altura senti o carinho de uma imprensa especializada que deu algum apoio, porque entendem que não é fácil o esforço que é feito em Portugal. O nosso país é muito particular, torna-se difícil ter o arcabouço financeiro para toda a logística inerente e a qualidade que é necessária. Depois houve uma altura que tive de refrear, porque os investimentos eram muito grandes para estar constantemente no centro de Portugal.

Em termos de Portugal Fashion como categoriza a experiência? Tendo em conta que o transporte das colecções é uma condicionante muito forte?

AC: Boa, mas sim, é mesmo uma condicionante muito forte. Existiram alguns apoios na altura para que eu fosse, como marca, aparecer no Portugal Fashion. Foi uma luta muito grande, mas a sensibilidade que temos fora desses centros é reduzida. As pessoas um pouco sensíveis a este tipo de manifestações, e estávamos numa altura em que se vendia saúde financeira, permitiram houvesse uma grande progressão nesse aspecto. As grandes empresas nem sempre apoiaram, ou teriam esse lado do mecenato, havia uma permuta para conseguirmos estar lá. Uma outra questão é o facto de não estarmos no centro faz com que o resultado de mostrar uma colecção num evento dessa envergadura supostamente permitiria conseguirmos fabricar e vender as peças aos lojistas, ou encontrar uma série de clientela. Da forma como trabalhámos na Madeira não há espaço para esse tipo de projectos, fazer uma colecção para ser vendida daqui a seis meses é estranho, há uma deturpação dos conceitos dos grandes centros, nesta ilha não vale a pena, porque nem indústria temos. A outra opção passava por construir as peças no continente, ou teríamos de deslocar-nos fora de Portugal para a produção. Depois o que acontecia? A  colecção ficava num showroom que ia fornecendo essas roupas as revistas para os  editoriais de moda que iam utilizando consoante a estação, isso é tudo muito bonito, mas há por detrás um investimento muito grande por parte das marcas, por isso, é que às vezes em vez de uma colecção tínhamos de fazer duas ou três iguais para conseguir ter um produto disperso. Quando somos pequeninos é claro que tudo isto tem custos maiores, porque o mercado da moda é muito forte, muito agressivo e já tem uma estrutura bem definida para chegar a tempo junto do público. O que nós fazemos na Madeira é lidar com o público em geral, que quer a suas peças num determinado prazo, num período que não tem a ver com as estações, mas com as ocasiões, quando encomendam é para momentos especiais. Portanto, são diversas funções que entram em choque.

A marca André Correia é aquilo que sonhou quando começou? Foi o que almejou?

AC: Eu acho que tive pequenos laivos daquilo que sonhei. Se calhar teimosamente insisti em determinadas situações, tive sempre um princípio de valores estéticos e de qualidade. Nesse aspecto consegui alcançar algumas conquistas e alguns picos, é claro, que quando estamos num mundo da moda num mercado como este temos sempre algumas oscilações, já tive ateliers como mais pessoal, como menos pessoas, já tive outros espaços e houve flutuações ao longo de toda a minha carreira. Sinceramente quais eram as minhas intenções no inicio? Eu era movido pelo sonho. Depois houve uma fase realista que teve a ver com a questão de valores e nesse âmbito tentei sempre respeitar os valores estéticos e de qualidade. Se calhar até dava demasiado quando não me era exigido, em termos de qualidade técnica, do material, etc. É claro que estes valores eram importantes para a minha consciência como designer e claro, o cliente iria usufruir, poderia gostar ou não, mas acho que o público gostou senão não aceitaria. O problema é que só uma pequena fracção desse público pode adquirir as peças, porque estavam imbuídas de qualidade técnica e de materiais que as tornavam acima da média em termos de preço. Nem toda a gente tinha acesso a esse tipo de peças. No entanto, tenho sempre tido um feedback ao longo dos tempos sempre positivo. Não posso afirmar que tenha tido um percurso clássico.

Acho curioso que foque esta questão, porque embora se fale dos restantes estilistas da região, não se fala do André. Porquê?

AC: Actualmente não faço questão que isso aconteça. Para já era preciso ter uma produção maior e a forma como temos sido “costurados” ao longo destes vinte anos pela comunicação social tem sido inglória e nem sequer  digna como gostaria de tivesse sido. Fomos colocados nas páginas das revistas, de determinadas publicações, onde nem sequer se mencionavam os nossos nomes. Ao longo destes anos, começou a ter-se essa sensibilidade, mas isso aos poucos foi provocando um certo desgaste. Tento sempre dizer que se é para aparecer, pelo menos que seja com a dignidade que mereço em qualquer que seja o mercado. Houve uma altura em que isso foi importante, não é o caso na actualidade, o que interessa é que quando apareço, que seja com qualidade. Outro motivo prende-se com facto de que não estou a ter uma actividade tão acentuada como antes, mantenho activo, mas não tenho a proporção que tinha no passado. Isso obrigava-me a ter outro tipo de mecanismos para conseguir estar constantemente no mercado, as vezes, é importante ver, mas acima de tudo consumir.

Esse percurso que traçou também não resultou de ter optado por outras vertentes profissionais, nomeadamente a cenografia em teatro?

AC: Os figurinos de teatro e a cenografia em outras áreas foram sempre situações paralelas ao que ia desenvolvendo na moda. Portanto, não interrompi um lado para começar em outros, estive sempre aberto a uma série de horizontes estéticos que me desafiavam e eu se pudesse respondia. Acho que de uns tempos a esta parte ganhei uma outra solidez, o que é normal, tem a ver com amadurecimento.

Mas, essas escolhas resultam do fascínio por essas artes? É um desafio?

AC: Sempre. Eu acho que a minha actividade como estilista começou mais dentro dos figurinos para teatro do que na área da moda, depois desenvolveram-se porque eram interesses comuns, se calhar não havia uma fronteira para mim. O que me interessava há vinte anos era o encantamento de construir essa viagem, fosse no teatro, ou na moda. E na realidade tive a sorte de ser convidado a trabalhar quer numa situação, quer noutra. Ao longo do meu percurso é claro que tudo ficou mais definido, os limites foram-se clarificando, o que era da moda, do que era do cenário, do que era dos figurinos e digamos que as intervenções eram cada vez mais contextualizadas e isso ajudou na pertinência  do meu percurso. Agora estou a fazer um layout para um CD que será lançado no início do ano que vêm. Construi o logotipo e uma série de detalhes, fruto de um curso que conclui, é uma abordagem mais gráfica, são linguagens que têm valores muitos próximos, tem técnica e intervenções diferentes, agora é só colocar os meus conhecimentos e “know-how” que foram-se encandeando ao longo do tempo para este trabalho.

É uma eterna aprendizagem?

AC: Sim, será errado dizer que sempre se alcançou alguma coisa. Eu nunca me dou por satisfeito. Na área da moda tive que refrear todo um percurso que estava a ter, porque chegou uma altura em que nem as minhas clientes começavam a querer as minhas peças, porque era extremamente oneroso. Gostavam de uma estética italiana, do lado artesanal parisiense, da sua execução, da sua forma e havia um tempo que era importante despender e como consequência havia um custo que era necessário pagar. Isto tudo de repente tornou-se conflituoso, foi necessário refrear um pouco, porque houve uma evolução das técnicas, quanto mais consciência temos do guarda-roupa, do acabamento, dos materiais, dos acessórios, tudo isso vai tendo uma consequência de custos que depois só é escoada se tivermos um mercado que nos aceita, ou então vamos ficando desfasados da realidade que é onde estamos. Por vezes é difícil lidar com estes dois pesos, da nossa estética, dos valores que uma sociedade aceita ou não.

Falando desses mesmos valores em termos femininos, as mulheres mudaram ao longo desse percurso em termos de gosto?

AC: Se calhar quem mudou foi eu e da forma como via a mulher. Acho que as escolhas são geracionais em termos de estética. Eu tento estar atento a evolução social e de gerações. Acho que há vinte anos tínhamos pessoas que se calhar não tendo tanta possibilidade de adquirir rapidamente tantos materiais e produtos, davam uma importância maior as peças e respeitavam-nas. Actualmente, há um consumo mais assoberbado, mais alargado, menos diferenciado estranhamente, todos eles são uniformizados, que nem sempre é benéfica, porque se a colocarmos numa escala de qualidade é mediana, não permite ter referências maiores. Tal só acontece se viajarmos e estivermos em contacto com outras realidades. Por exemplo, temos uma série de franchising que são dominados basicamente por um grupo têxtil, que é indetex, e são as lojas que dominam qualquer centro comercial do país. O grande mercado , as pessoas em geral, consome este tipo de produtos e em termos de moda estão num determinado estracto de qualificação. Se formos a França ou Itália o design é diferente porque somos confrontados com uma produtos e acabamentos distintos e aí vemos a diferença. Quando estamos estratificados num determinado patamar há poucas nuances e então vamo-nos conformando com essa realidade de consumo que são perfeitamente satisfatórias. Antigamente as mulheres tinham um léxico de qualidade mais evoluído, havia maiores deslocações, um contacto com outras realidades e agora estamos satisfeitos com essa realidade.

Também coincidiu com o desaparecimento dos grandes costureiros. A realidade é que até esses designers já fazem peças para essas grandes marcas generalistas.

AC; Porquê? As novas gerações querem consumir. Compreende-se que haja uma grande marca por detrás, que é diluída em milhares de peças de cada produto. Se a camisa é produzida cem mil vezes e é distribuída em grande escala parece que estamos a comprar algo exclusivo. Realmente é isso mesmo, a moda esta direcionada para esse tipo de consumo, ou nós estamos atentos a essa realidade ou então somos pequenos criadores e vamos ter uma valência maior, por mais simples que seja, obriga a que seja sempre bom, com qualidade na execução e com boas opções estéticas e que ao mesmo tempo consiga estar à altura, ou seja superior ao que já existe no mercado.

Então qual é o futuro para os designers de moda como o André?

AC: Não sei, é preciso haver muito boa vontade e algum dinheiro.

Porque as mulheres já não valorizam o seu tipo de produto?

AC: Eu acho que há sempre um momento em que podemos despender algum montante para ocasiões mais importantes e especiais, para um consumo corriqueiro não faz sentido. Não vale a pena concorrer com uma Zara, por exemplo. É uma batalhar perdida. Estas marcas reflectem um estilo de vida, cada um das zonas das lojas se reparar com alguma atenção mostram um determinado estilo, do mais clássico, ao mais casual, são estratificados e abrangem todos os tipos de mulheres. Os designers têm sempre o seu espaço para se sentirem representados, não sei é se vale a pena o esforço.

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