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Mosquito narrador

Escrito por  yvette vieira fts sofia salinas

   

As narrativas musicais de Nástio Mosquito em palco são uma experiência única, inesquecível em termos visuais e melódicos. São um cartão de visita para um universo povoado de histórias e personagens que o inspiram não só como artista, mas como ser humano atento a tudo o que o rodeia. É a banda sonora de uma vida, a dele.

Passados estes anos todos, já a viver em Angola, senteste mais angolano ou és um cidadão do mundo?
Nátio Mosquito: Um bocado de tudo, em algum sentido eu sou angolano, mas sou um pouco de todos os lugares onde estive. Mas, mais importante do que ser angolano é o ser humano em termos de localização geográfica, eu sou filho da minha mãe, sou alguém que gosta de arroz, que gosta de conduzir e de música. Há coisas mais importantes do que a identidade, o nosso relacionamento com o nosso lugar de origem, de onde viemos e para onde queremos ir. É algo que me preocupa bastante, que me preenche perguntar-me para onde vou, porque não é possível projectar-nos no futuro, se fizermos como deve ser, sem olhar para o passado e levar muito a sério o nosso presente. Se olharmos só para o passado perdemos algumas coisas, projectar o futuro é sempre mais consequente, mais lucrativo para cada indivíduo. Então a pergunta para mim é de onde é que sou? E o meu desafio não é se me sinto mais daqui, ou dali, é se tenho uma forma mais segura para onde quero ir.

E para onde tu queres ir esta reflectido no "saindo do armário"?
NM: O "saindo do armário" é uma colectânea de vários temas. Foi a primeira coisa que coloquei na internet, depois deixa-me "entrar" e só depois "se fosse angolano" e para onde quero ir esta reflectido neste último trabalho, em que de alguma maneira coloco essa despedida. Eu sinto-me sem dúvida angolano, temos de olhar para quais são as propostas que este trabalho traz e tem muito pouco a ver com o sentimento de pertença a uma nação, a um ponto geográfico, tem mais a ver com um sentido de motivação e eu creio que isso se reflecte no trabalho.

E ao longo deste anos notas que as tuas letras mudaram e parece-me que no início existe um certo som reivindicativo e actualmente abordas outros temas mais universais, como o amor, as relações, a tua forma de olhar para o mundo, para os outros, ou nem por isso?
NM: O que diz faz sentido, não tanto no que abordo, mas naquilo que é posto cá fora. Eu sempre escrevi sobre amor e relações e isso importa-me, eu não me reconheço como alguém que faz coisas reivindicaticas. O que me move são as relações entre as pessoas e como é que isso se reflecte na nossa vida, porque é isso que faz com que tenhámos uma vida preenchida e consequente. Eu acho que no meu trabalho, durante algum tempo, foi muito útil em círculos reivindicativos, como da poesia, onde me debruçava sobre questões das relações das pessoas com os sistemas culturais e sociais onde se encontravam, mas sempre do ponto de vista do indivíduo em relação à sua percepção de pertença. É o material que escolhi, tenho o privilégio de ter vários músicos e ter um concerto musical e fazer isto, estive na Suiça e o conteúdo foi totalmente diferente.

Mas, em que é diferente o concerto na Ponta do Sol ou na Suiça?
NM: No conteúdo. Garças a Deus tenho material suficiente para poder dirigir quais as narrativas para cada momento e não tenho nada para reevindicar, já viu esta vista? Este lugar? É agradecer o privilégio de conseguir não só a possibilidade de fazer música, como das pessoas que querem ouvir. Eu queria celebrar relações, era isso que queria fazer na Madeira, que é algo que sempre fiz. Aquilo que as pessoas tem conhecimento vai variando.

 

 

Então como é um concerto em Angola é muito diferente? Adaptas ao público e o que esta em teu redor?
NM: Provavelmente seria, eu não quero estar a mentir e ser hipótetico. Eu já fiz muitas coisas em Angola, coisas diferentes, vários tipos de espectáculos. Este é o primeiro concerto que fazemos com este grupo de músicos e dá esta combinação, a diferença não esta necessariamente onde estou, esta na história que vou contar e não é algo que eu reajo geograficamente, são muitos elementos que entram em jogo, que espero fazer sempre quando estou em Angola e na Madeira, ou quando estiver em Sines daqui a uns dias. O que pretendo é que ao criar narrativas consigo envolver as pessoas, é o que me interessa.

Depois de um concerto em Angola, que percepção tens do público, qual é o seu feedback?
NM: Não sei, não me preocupo com isso. Confesso que algo com o qual não me envolvo muito, porque é demasiado perigoso. Agora sei que tem pessoas que apreciam o meu trabalho, que apoiam, mas muitos acham agressivo, arriscado, mau e acho que isso é igual em qualquer lugar.

O tema "mais" é o teu preferido?
NM: Eu gosto, não é meu tema preferido.

Então hoje foi o "mais"?
NM: Não foi eu inclusive que quis cantar o "mais". Gosto de cantar o tema, mas se ouvir o álbum não é o meu tema preferido, tocar ao vivo é outro formato. Eu sempre tive intenção de fazer música pop, mas não consigo aparentemente e essa canção mais foi a minha última tentativa. Agora eu quero fazer música e não me preocupo com isso.

Qual é o tema que te define como músico?
NM: Não me define, as minhas músicas apesar de tudo não são terapia. Não é uma sessão terapeútica que faço a mim próprio para oferecer as pessoas, não. Gosto de ouvir no álbum "se fosse angolano" particularmente "o desabafo de um qualquer angolano" esse o tema que não me define a mim, mas sim, a motivação do trabalho.

Crias bandas sonoras? Houve no concerto uma espécie de osmose entre o que se passava na tela por detrás de ti e o que cantavas. O Vic Pereiró mostra-te primeiro as imagens e depois escreves as letras, ou vice-versa? Como funciona o vosso processo criativo?
NM: Neste caso todo o universo musical estava criado primeiro e depois com a minha produção e do Vic é que criámos essas narrativas musicais. E a nossa ideia não é criar coisas redundantes, não é fazer um vídeo que esteja a relatar a música, mas sim que acrescente algo, outra dimensão, outra perspectiva, porque se houver alguém que porventura possa ser surdo e esteja só a olhar para as imagens, eu tenho um tipo de narrativa, se tiver alguém cego e que só oiça é a música que funciona, se tenho alguém com todos os sentidos, eu espero que essa combinação traga ainda uma outra coisa. Então queremos criar narrativas, bandas sonoras é uma boa forma de o pôr, mais audio-visuais em cima de um palco esse é o nosso objectivo.

E vão continuar a produzir estas parcerias?
NM: A minha parceria com o Vic é anterior e espero que continue por muito tempo.

E qual é o teu próximo projecto ao nível musical?
NM: Ao nível musical, não tenho. É o defender este projecto actual, mas eu trabalho como músico em tudo o que faço. Não sei se posso considerar projectos musicais ou não, mas tenho várias exposições agora para preparar. Aliás, já é um atrevimento enorme fazer música e estar aqui, porque a vida dos músicos é muito difícil, a sua renumeração é muito diminuta, mas é a paixão que me traz aqui. A minha forma de estar é como artista plástico, no campo musical é preparar estes espectáculos, quase pareço um jogador de futebol, mas estou focado no próximo concerto.

A música aparece antes ou depois da arte no teu percurso como artista plástico? Ou são dois percursos paralelos?
NM: A escrita é a única constante em tudo isso, tudo o resto aparece como um mecanismo para transmitir. Eu estou interessado em contar histórias, há umas que se contam melhor em filme, outras em fotografia, em canção, em vídeo, outras ainda em cima do palco e eu só quero contá-las. Quero dividir perspectivas com as pessoas e que isso seja dito de uma forma competente, a arte e a música estão ao serviço disso, do quero transmitir, o princípio é a escrita, tudo passa pela palavra.

http://nastiomosquito.com/musica/

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