
Criado em meados de 2005 pelo músico David Santos, o seu alter ego, Noiserv tem vindo a afirmar-se como um dos mais criativos e estimulantes projectos musicais, de entre os surgidos em Portugal na última década.“Almost visible orchestra” foi o último álbum lançado pelo jovem músico, com o qual esteve em tournée um pouco por todo o mundo.
Fiquei na dúvida sob a forma como constróis as tuas canções.
Noirsev: Nos discos ou nos concertos?
Nos discos. Porque tenho a impressão que embora tenhas títulos que remetem para uma série de coisas, é na música que encontrámos o sentido e não propriamente nas letras. Parece que constróis a tua sonoridade por camadas.
N: Eu acho que a questão dos títulos neste último álbum é a conjugação das duas coisas, é como se a letra e a música fossem em si também como uma união para chegarem ao título e não é uma coisa específica do que é a letra.
Mas, o que aparece primeiro? É a ideia?
N: Os títulos por norma aparecem no fim, porque é depois de ouvir a própria música com letra e parte instumental que tento perceber o que a canção me transmite e quero que o título transponha tudo isso. Primeiro é sempre uma base instrumental qualquer, ou na guitarra ou no piano, que aparece por 30 a 40 segundos, é a ideia de um conjunto de acordes que é daquilo de que gosto. A seguir a isso, insiro uma enxerto de voz que encaixe bem com essa sonoridade e a partir daí, desses 40 segundos, é que vou então trabalhar a música toda e fazer todos os arranjos por cima dessa pequena base. Surge sempre o instrumento, a seguir a voz para complementar e só depois essas camadas todas que referes.
Em relação ao teu primeiro disco, “one houndred miles of thoughtlessness- a day in the day of the days” que mudou em relação ao teu segundo trabalho?
N: Eu enquanto músico era melhor no segundo disco do que no primeiro, ou seja, os cinco anos que separaram os dois álbuns surgem depois de muitos concertos, de comprar muitos instrumentos e experimentar muitas coisas e de eu próprio perceber o que era a música que conseguia fazer, percebes? Em termos de competências técnicas e estructuras e dos arranjos que uma música pode conter, acho que estou mais competente neste disco que no anterior. Não que o novo álbum seja mau, mas acho que é menos complexo, algo que “almost visible orchestra” é muito mais trabalhado, mais afinado e o primeiro foi algo mais espontâneo.
Há dois tons no primeiro disco, parece mais branco e preto e este novo registo musical tem muita cor. Porquê fizestes essa distinção até nos vídeos?
N: É muito pelo estava a dizer, este disco é como se tivesses um especto de cores e para estar completo não tens só o preto e o branco, eu acho que este disco é mais completo que o anterior. No primeiro trabalho, o conceito de preto e branco tinha muito a ver com a capa, que é com lápis a cores, era a ideia de uma base para um mundo preto e branco que a pessoa pode tornar colorida. Neste último álbum não, eu puxei mais da canções, são temas muito mais complexos, quando o ouvi as novas músicas e do rumo que ia tomar, vi a diferença entre um e outro, este tem muito mais luzes, mais ambientes e sentidos.
O teu primeiro disco foi um êxito não só junto do público, como da crítica. Curiosamente, dizes que é um disco menos depurado.
N: Acho que em termos da crítica, não acho que seja pior do que no anterior álbum, o anterior apanhou as pessoas mais de surpresa, eu não era nada conhecido e depois apareceu o universo das minhas música. Acho que este é um seguimento, eu não considero que o meu primeiro trabalho musical seja mau, acho é que sou mais competente e toco melhor os instrumentos que naquela altura, acho que esta mais bem feito. É como um atleta que se calhar no seu primeiro ano em competição não fez tão bons tempos como no último, o que não quer dizer que no ínício não se esforçasse para fazer o seu melhor.
Quando pensas nas canções pensas em inglês?
N: Sim, acontece muito isso. As músicas que fiz no palco do tempo aí claramente eram em português, ao fim destes anos todos, que são quase 10 anos a cantar em inglês, quando estou a tocar, ou a cantar faço-o em inglês.
Porquê?
N: Acho que tem a ver com as influências musicais que tinha na altura, nos meus 15 anos ouvia os “Nirvana”, os “Garbage” e os “Pearl Jam”, não era o “Sérgio Godinho” e portanto, quando peguei na guitarra e comecei a tocar as primeiras vezes, as melodias na minha cabeça surgiam com palavras em inglês. Tenho um tema em português e acho hoje em dia uma desafio interessante fazê-lo, que pretendo continuar de futuro, mas é algo novo. Quando é em inglês saem bem, hoje em dia já me apercebo quando uma base de piano me pede uma letra em português ou inglês e isso é giro.
E agora, estas a preparar um novo trabalho ou não?
N: Tenho pequeninas ideias, mas é ainda tudo muito rascunho. Lancei o disco no ano passado e passei o 2014 cheio de concertos e tenho projectos, mas não tive realmente muito tempo sentado para pensar e fazer músicas novas.
Dos temas que já compusestes qual é o que te define melhor como cantautor?
N: Não sei se há um, um disco é um conjunto de canções e emoções. Eu sou esse conjunto, não há uma canção em que me sinta completo, porque preciso das restantes para obter emoções, mas voltando a conversa do ínício, este último álbum define aquilo que sou mais, porque me deu muito trabalho a fazer e foi muito complexo e acho que esta tudo muito no sítio. O trabalho já saiu há um ano e quando oiço as músicas não me arrependo, não mudava nada, porque demorei muito tempo a chegar a este produto final e continuo satisfeito.




