Um olhar sobre o mundo Português

 

                                                                           

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O diário de um ex-nómada

Escrito por 

É a viagem da Nirvana estúdios e do seu universo alternativo contado por um dos seus mentores, Michel Alex.

No ano de 2003 tínhamos uma caravana de 30 veículos para o nosso espectáculo itinerante. Um dos camiões teve uma avaria e nesse paragem imprevista avistámos um grande cartaz anunciando uma hasta pública. O terreno era enorme, parcialmente coberto de vegetação e nele havia uma ruína. Ia a leilão e nós pensámos: vamos juntar-nos todos e licitar! Erámos uma comunidade nómada há demasiado tempo e precisávamos de assentar os arraias. Aconteceu tudo ali, naquele momento. Acabámos por aparecer, licitámos e eles aceitaram a nossa proposta. Depois foi a corrida habitual, aos créditos, ver o que havia. Vendemos imensos veículos, camiões, rulotes e carrinhas. Foi assim que tudo começou. Foi o culminar de uma busca pela libertação, o nosso nirvana. O nome ficou. O que restava do antigo quartel militar era apenas uma sombra do seu passado. Pusemos mãos à obra. Havia que reconstruir o espaço, abrir novas canalizações, erguer paredes, tudo…não havia nada. Basicamente, toda a experiência que tínhamos acumulado a montar os espectáculos, os cenários, os espaços, fez de nós um pouco de soldadores, serralheiros, carpinteiros, eletricistas e canalizadores. A vida na estrada ensina-nos estas coisas, somos gente dos camiões, do mar, das estrelas e quase todos artistas. É uma espécie comunidade de templários que vem um monte e decidem construir uma catedral. Esta era a nossa. A Sé dos nossos sonhos e ambições, um antigo quartel para o nosso mundo pós-apocalíptico.

Edificamos o espaço pouco a pouco, foi uma visão progressiva. Não deixamos de ser nómadas. Continuámos a fazer da estrada a nossa casa. Uma parte da equipa voltava para dar começo a obra e depois vinham os restantes. Passado um tempo tínhamos que retomar o nosso caminho, uma e outra vez. Ao longo dos anos, as nossas saídas foram encolhendo á medida que a nossa nova casa crescia. Nesta primeira fase demos o nome de estúdio oito a um hangar onde instalámos o nosso teatro multidisciplinar, onde realizamos os nossos espectáculos, que alberga o Custom Circus. A nossa fama de empreendedores alternativos, de porto seguro, trouxe mais gente e mais projectos que contribuíram para financiar a construção de outros estúdios vocacionados para as artes, são agora doze no total, do que hoje em dia designámos de Nirvana Estúdios, numa área com 40 mil metros quadrados. Estas zonas independentes são usadas livremente, alugadas 24 horas por dia, aliás, tudo é construído de acordo com os projectos. Os artistas, os colectivos vem ter connosco e dizem-nos: necessitamos de um espaço para a nossa actividade. Tudo o que se integrar no nosso estilo de vida, mais underground, a malta mais incompreendida, é acolhida e aqui sentem-se em família, ou seja, vem e acabam por ficar. Temos o Zoe estúdio, que produz programas para a sic radical e a Gruvitar a melhor loja de material de baterias do país, isto sem falar no resto. É uma comunidade global. No total reúne cerca de 700 pessoas. O nosso universo envolve muita desta gente, que nem tem a ver com a companhia Custom, são projectos periféricos que gravitam á nossa volta, mas fazem parte da nossa essência. A independência aqui é muito encorajada. Animámos a formação de colectivos. Não há fronteiras. Toda a gente se conhece e interage uns com os outros. Não há uma segmentação. Não há uma membrana, tudo é completamente livre, recebemos muita gente de fora, que desenvolvem um projecto e depois vão-se embora. É um processo muito dinâmico.

O próximo passo deste universo é uma arena apocalíptica. A custom arena. Aqui dentro, há uma avenida que é a Nirvana Boulevard, o Custom Café está construído e agora queríamos criar um outro ambiente, um cenário de filme, nessa linguagem estética, como no “mad max”, com uma estrutura física gigante para o nosso espectáculo sobre rodas. Estamos a negociar com a Câmara, porque isto tem algum impacto estructural e plástico que muitas vezes não é visto com bons olhos. Camiões na vertical, com corredores de contentores e outras estruturas que para nós é arte, para eles pode não ser encarado assim. Estamos a negociar aos poucos. É um espaço que poderia receber 5 mil pessoas e visitável mesmo que não tivesse espectáculos, seria uma instalação artística ao vivo, que vive 100% para além do show. É um sonho bonito e agradável á vista. Este é o nosso próximo passo. Estamos nas mãos da edilidade. Aqui, no nosso mundo tudo é feito com base legal, só construímos com licenças. Temos engenheiros e arquitectos a trabalhar para nossa causa, embora isso sempre nos atrasou imenso. Degasta-nos muito financeiramente, mas pronto, podemos ser muito alternativos e irreverentes, mas este é um acto que não vale a pena contornar. É um preço que sempre estivemos dispostos a pagar, porque sabemos que no fim vamos conseguir. Agora é muito mais fácil, já nos conhecem e a nossa fama supera fronteiras. Ultrapassa preconceitos. É o vislumbre de um novo mundo, livre, com os pés bem assente na terra. Venha conhecer-nos e conte-nos o seu sonho.

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