Um olhar sobre o mundo Português

 

                                                                           

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Os nazarenos

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É uma das localidades costeiras da Portugal mais visitadas por turistas.

O mar bravio trespassa o nosso olhar. Os ecos das ondas a bater no areal clamam pelos nossos corpos. Um único mergulho desperta uma intensa corrente que nos aquece nas frias águas, que nos recorda da nossa insignificante existência perante uma onda gigante que nos engole. É a força da natureza que se manifesta nas correntes que teimam em empurrar-nos para fora contra a nossa vontade. Fortes braçadas levam-nos de novo até a baia que apenas nos protege dos ventos frios do Atlântico, onde o mar é omnipresente. Em terra, tiritámos do frio e ao mesmo tempo ouvimos as histórias de marinheiros que falam de gerações de homens que se fizeram as suas águas turbulentas, conhecedores da sua generosidade e da sua personalidade imprevisível que exige em troca algumas das suas almas que guarda nas profundezas do seu ser. Nas mulheres o oceano deixa a sua marca nos rostos, sulcos traçados pela ansiedade e pelas lágrimas, os cabelos estão cobertos por um retalho preto, são como bandeiras de uma dor infinita e as mãos estão calejadas pelas redes que consertam em silêncio. O olhar é duro quando encaram as águas. Elas sabem que para lá do horizonte, tudo é uma incógnita. O mar dá, mas também tira, dizem. É o seu fado, o seu destino, acatam-no com humildade e um certo ressentimento, muitos amores já se perderam para sempre na sua imensidão azul. Basta olhar para as vestes negras que contrastam com o dourado do areal. Mas, de que vale clamar por vingança? Só conhecem esta existência salgada, afogada na fé inabalável de melhores dias, nas rezas mudas diárias e nas súplicas pelo bom retorno da faina. A pesca é a sua vida e o seu ganha-pão. Agora, são também os turistas, que invadem todos os anos as areias da praia que antes era apenas dos nazarenos. Vem à procura das ondas generosas, do peixe e marisco abundante que trazem para terra, o mar dá, proferem de novo, como uma ladainha. No cimo, uma capela guarda os pedidos e as orações dos homens e das mulheres que vivem do mar e que almejam por dias de abundância. A viagem até lá é feita pelo elevador, como chamam as gentes da Nazaré.

No topo de um penhasco avistámos do miradouro do Suberco toda a beleza de uma das vilas mais belas da Portugal. Sob o intenso calor do sol quase esquecemos as mágoas daqueles que perderam tudo nestas águas sem fim. Nas nossas costas, ergue-se uma cidade cheia de cor. Os seus testemunhos históricos, erigidos na pedra, confirmam as lendas que passaram de geração em geração. Dom Fuas, o alcaide de Porto de Mós, durante uma caçada, é tentado pelo demónio sob a forma de veado. O nobre sedento pelo seu trofeu, que persegue obsessivamente não avista o final da arriba e precipita-se até a sua desgraça, não sem antes pedir auxílio a nossa senhora da Nazaré que no último momento o salva da morte certa. Na rocha, mesmo ao lado da ermida que foi construída como forma de agradecimento, há um sulco que o povo afirma ser do casco do cavalo. A história deste testemunho físico do milagre espalhou-se pelos quatro cantos do reino e trouxe consigo ao longo de vários séculos peregrinos a este local sagrado. As ruas da cidade fervilham com gente, mesmo nos dias cobertos pelas brumas do mar. Atentas as ciganas atraem os seus potencias clientes com lisonjas, é um borbulhar de gritos e apelos para as bancas que vendem o tão afamado pescado local, pão, doces regionais e as quinquilharias que alegram os dias das crianças no areal. De volta à orilha do mar, deixámo-nos hipnotizar pelo seu ritmo cadente e os nossos pensamentos perdem-se na espuma branca das águas. Até um dia.

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