Um olhar sobre o mundo Português

 

                                                                           

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Requiem à ilha

Escrito por 

É a minha singela homenagem aos homens e mulheres madeirenses, aos bombeiros e forças policias que tentaram salvar a nossa terra natal.

O meu mundo ardeu. O inferno soltou-se sob o auspício das chamas que consumiu os tons de verde que salpicavam os socalcos da ilha. Da montanha ao vale e da serra ao mar, o luto cobre a paisagem e os nossos corações. O fogo ciumento consumiu quase toda a vegetação luxuriante que envolvia o relevo acentuado de formas sinuosas e vales profundos. No solo nada mais resta do que cinzas, escombros de vidas que foram construídas com imenso sacrifício e que se perderam para sempre. São os recortes da minha infância que desapareceram. A casa da minha avó onde nasceram os seus doze filhos, cresceram e partiram em busca do sonho da abundância. A nespereira da senhora Maria que galgava alegremente para deliciar-me com os seus frutos. Os terrenos cobertos de espigas de milho que roubava do vizinho para assar com os amigos no meio pinheiral. As vinhas de carregadas de uvas americana que enchiam de orgulho o meu avô e as fontes de onde brotava água que matava a nossa sede inquieta própria da juventude. Tudo se transformou em pó. Como se nunca tivesse existido. Em seu lugar, um manto negro cobre o céu e a terra. O ar é quase irrespirável. As memórias olfactivas dos pinheiros, das acácias e dos eucaliptos queimados sobrecarregam as nossas narinas, provenientes dos fumos que ainda exalam dos seus esqueletos carbonizados.

Os olhares dos que sobreviveram são espelhos do que lhes vai na alma. É o desalento transformado em grossas lágrimas que caem livremente, criando sulcos nos rostos pintados de negro e cinza. Carregam nas costas uma cavada tristeza e o peso das noites mal dormidas. O silêncio é profundo. Não há palavras para descrever o horror de ter quase perdido a própria existência numa luta desigual. Nos corpos, as marcas das labaredas são cicatrizes de uma batalha ganha, mas quase perdida. Na memória mais recente, marcada a ferro e fogo, esta a angústia e desespero de horas infinitas à espera da ajuda preciosa que tardou em chegar. A pérola do Atlântico sangra no seu amágo. A ilha continua a cuspir fogo há já uma semana. Sofre, mas não sucumbe. Desta tragédia, tal qual uma fénix, ergue-se o seu povo estóico e valente, que não recuou perante o flagelo que se avizinhava nos recantos montanhosos e nos beirais dos telhados. Constroem-se mitos delimitados pelas chamas de heróis anónimos, os homens da paz que mostraram no terreno a sua fibra até a exaustão. Os madeirenses não baixam os braços. Oferecem o que podem, as suas mãos solidárias, o seu alimento, as suas palavras de conforto, um abraço apertado, um ombro amigo e o esboço de um sorriso esperançoso. Não estamos sós. Estamos juntos. Estamos unidos, como os nossos antepassados antes de nós. Está impresso no ADN, somos ilhéus, fruto de séculos de insularidade que nos ensinaram a depender apenas da nossa vontade indómita de sobrevivência, numa convivência quase pacífica com uma natureza generosa, mas agreste que não teve a culpa. É o homem que tudo faz e alguns destroem sem medir as consequências. Bem-haja Madeira.

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