
Os olhares dos que sobreviveram são espelhos do que lhes vai na alma. É o desalento transformado em grossas lágrimas que caem livremente, criando sulcos nos rostos pintados de negro e cinza. Carregam nas costas uma cavada tristeza e o peso das noites mal dormidas. O silêncio é profundo. Não há palavras para descrever o horror de ter quase perdido a própria existência numa luta desigual. Nos corpos, as marcas das labaredas são cicatrizes de uma batalha ganha, mas quase perdida. Na memória mais recente, marcada a ferro e fogo, esta a angústia e desespero de horas infinitas à espera da ajuda preciosa que tardou em chegar. A pérola do Atlântico sangra no seu amágo. A ilha continua a cuspir fogo há já uma semana. Sofre, mas não sucumbe. Desta tragédia, tal qual uma fénix, ergue-se o seu povo estóico e valente, que não recuou perante o flagelo que se avizinhava nos recantos montanhosos e nos beirais dos telhados. Constroem-se mitos delimitados pelas chamas de heróis anónimos, os homens da paz que mostraram no terreno a sua fibra até a exaustão. Os madeirenses não baixam os braços. Oferecem o que podem, as suas mãos solidárias, o seu alimento, as suas palavras de conforto, um abraço apertado, um ombro amigo e o esboço de um sorriso esperançoso. Não estamos sós. Estamos juntos. Estamos unidos, como os nossos antepassados antes de nós. Está impresso no ADN, somos ilhéus, fruto de séculos de insularidade que nos ensinaram a depender apenas da nossa vontade indómita de sobrevivência, numa convivência quase pacífica com uma natureza generosa, mas agreste que não teve a culpa. É o homem que tudo faz e alguns destroem sem medir as consequências. Bem-haja Madeira.





