Tubarões, Spielberg e Gansbaai

Escrito por  yvette vieira fts antoinette van den dikkenberg

  

Foi um dos momentos mais memoráveis de uma viagem inesquecível.

Um dos meus principais desejos ao visitar África do Sul foi mergulhar nas águas frias do Índico, neste caso concreto em Gansbaai, para apreciar os famosos e mal-afamados tubarões-brancos. Desde que sou jovem que estes predadores do oceano exercem em mim um grande fascínio principalmente depois de ter visto o famoso filme “Tubarão” de Steven Spielberg (o primeiro é claro e o melhor de uma saga que se foi deteriorando em qualidade à medida que se foram produzindo mais filmes) e que catapultou não só o realizador para a fama internacional, como também este magnífico espécimen para um estrelato indesejado, que ajudou a contribuir para o declínio da espécie nos oceanos. É verdade! Os tubarões-brancos infelizmente apelidados de “comedores de homens” afinal não são e apesar de estarem referenciados poucos ataques desta espécie em seres humanos ao longo dos séculos, há esta crença generalizada do seu alegado perigo que surgiu por causa filme.
Para desmitificar um pouco esta ideia errónea sobre este predador dos oceanos todos os anos são contabilizados os ataques de tubarões por todo o mundo, ao todo só em 2017 foram registados 88 ataques não provocados, ou seja, incidentes que ocorreram no habitat natural destes peixes sem qualquer tipo de provocação humana, sendo que 53 ocorreram no EUA, 14 na Austrália dos quais dois foram fatais e apenas 2 na África do Sul, segundo o relatório anual do arquivo internacional de ataques de tubarões*.

O facto é que apesar dos números, de acordo ainda com este organismo, “o número total de ataques de tubarão não provocados em todo o mundo é notavelmente baixo, considerando os bilhões de pessoas que participam da recreação aquática a cada ano. Durante décadas, as taxas de fatalidade em todo o mundo continuaram a diminuir refletindo os avanços na segurança da praia, tratamento médico e conscientização pública. Isso ressalta a importância dos esforços globais para melhorar o resgate oceânico, assistência médica e educação de tubarões. Contudo, a triste verdade é que as populações de tubarões do mundo estão realmente em declínio, ou existem em níveis muito reduzidos, como resultado da pesca excessiva e perda de habitat. Em média, existem apenas seis fatalidades que são atribuíveis a ataques de tubarão não provocados em todo o mundo, a cada ano. Em contraste, cerca de 100 milhões de tubarões e raias são mortos a cada ano pela pesca. Existe uma necessidade urgente de conservar estes animais e os seus habitats associados para assegurar a sua sustentabilidade a longo prazo”.
Depois de todos estes dados e estatísticas, vamos ao que interessa, a minha aventura com o tubarão-branco que começa a 200 quilómetros da cidade do Cabo, na praia de Gansbaai mais conhecida como “a capital do tubarão-branco”.

 

Esta pequena vila piscatória, devido ao elevado número de espécimenes marinhos que podem ser encontrados nas suas águas, é uma área marinha protegida e para isso em muito contribui a elevada concentração de tubarões-brancos neste ecossistema subaquático. Num dos muitos estudos científicos que estão a ser levados a cabo nesta zona, um deles tem como objectivo tentar esclarecer alguns dos hábitos desta espécie e a forma como se reproduzem que continua a ser um mistério, tanto é assim que o “National Geographic” oferece 1 milhão de dólares para quem conseguir fotografar ou filmar um casal de tubarão-branco em pleno acto de reprodução, porque não existem quaisquer imagens, ou filmagens desse momento tão específico e tão íntimo pelos vistos.
Retomando o meu relato, a minha viagem começou às sete horas da manhã, na sede de “shark diving. Co” *, com um pequeno-almoço robusto e um pequeno briefing sobre a viagem, onde nos foi descrita a forma correcta de movimentar-nos na embarcação e os cuidados a ter dentro da jaula. Após meia hora de viagem no “Megalon II” ao longo da costa de Gansbaai, detivemo-nos no que parecia ser o local adequado para o avistamento destes magníficos especimens e o isco foi lançado ao mar, um chamariz nauseabundo constituído por vários restos de peixes, mas que para os tubarões é um petisco difícil de resistir.

 

A jaula já estava a postos na água e depois de entrar neste espaço gradeado, semissubmergido, com mais cinco companheiros de aventura quase todos europeus e muito mais jovens, não pude deixar de notar a belíssima cor azul topázio destas águas frias do Índico, cerca de 12 graus centigrados, no inverno sul-africano. Mas, o que mais me surpreendeu não foi a temperatura da água, mas sim o sabor muito menos salgado do que a do oceano Atlântico que banha a costa portuguesa.
Passado algum tempo que me pareceu interminável e já me estava a deixar impaciente, eis que surgiu inesperadamente uma barbatana na superfície da água, acreditem se quiserem, comecei a titubear para mim mesma aquele trecho da banda sonora do filme, tum-tum-tum-tum turuuuuuummm e quando mergulhei o tubarão passeou-se mesmo à minha frente e tive mesmo muita vontade de o tocar, mas não podia, porque é expressamente proibido, com direito a saída da jaula, o propósito é perturbar o menos possível este magnifico animal e também não corrermos o risco de perder uns dedos, ou a mão, ou o braço, deixo o potencial cenário sangrento à vossa imaginação.

 

Foi tal e qual as cenas dos milhares de documentário que assisti ao longo da minha vida sobre tubarões, aquele momento em que um dos maiores predador dos mares nos observa com aqueles olhos mortiços ao passar por nós, como se fosse em câmara lenta. Foi soberbo! Se tive medo? Bem, honestamente não. Parece uma contradição, ou poderão pensar que sou arrogante, mas verdade seja dita não senti nenhum tipo de receio, primeiro, eu é que estava dentro de uma jaula, depois a tripulação e o capitão, foram ao meu ver, muito profissionais e competentes e para além disso, como poderia estar assustada, quando diante de mim estava um dos mais belos exemplares do oceano? Foi simplesmente inesquecível! Cada vez que um dos tripulantes puxava a cabeça de atum para à tona e o tubarão tentava morder era um daqueles momentos Kodak para mais tarde recordar!
Curiosamente, o nosso tubarão afinal era uma fêmea, chamada Scarlett e um dos exemplares do estudo científico que já referi, segundo o capitão do “Megaledon II” ela gosta de passear até à Austrália e depois volta para Gansbaai, numa espécie de “walkabout”, um vaguear oceânico que os cientistas ainda não conseguem explicar e que se estende aos restantes espécimenes de tubarão-branco, esse percorrer os vários oceanos do nosso planeta de forma solitária e sem objectivo aparente.
No final o que mais me deixou perplexa para ser franca foi quando soube o comprimento da Scarlett, cerca de 3 metros de comprimento, contudo, na água enquanto a observava parecia-me bem mais pequena e só tive noção da sua envergadura após ver as imagens e nada me deixou mais feliz. Afinal estive frente a frente com um dos maiores predadores do oceano e ainda um dos seres marinhos mais misteriosos de nosso planeta. Caso para dizer UAU!!!!

 

*Sobre a “shark diving.co”, optei por esta empresa depois de ter efectuado diversas pesquisas, embora não apareçam comentários especificamente no tripadvisor. Gostei muito do serviço prestado, do profissionalismo e boa disposição dos funcionários e por isso recomendo vivamente.
Agora, tem de ter atenção vários aspectos, um deles é que ao marcar uma viagem por um dia, tem de agendar mais do que uma data, porque tudo vai depender das condições climatéricas, especialmente no inverno, quando eu fui, devo acrescentar que tive imensa sorte e quando marquei duas potenciais datas, só a segunda na tentativa é que fiz a viagem. Se tem os dias todos agendados na sua viagem à África do Sul tem de gerir bem o tempo.
O segundo factor a ter em consideração é que como eu viajei para um outro continente a forma de contactar a empresa, foi através do whatsapp, ou do Messenger do Facebook, senão as chamadas internacionais saem muito caras, por isso, não se esqueçam de ter activas várias apps.

Por último, não é necessário ter curso de mergulho ver tubarões, apenas se mergulha quando recebemos sinal do capitão da embarcação, já que a jaula tem um barrote onde nos apoiamos e nunca tocamos o fundo da estructura. O balançar da embarcação e o potencial enjoo que daí advém é combatido com os vários doces e snacks postos à nossa disposição. Comam, não hesitem. Agora, vestir e despir o fato de mergulho é uma autêntica odisseia e num barco tão pequeno ainda o é mais. Para os rapazes não é problema, mas as raparigas aconselho que levem já vestido um calção de lycra, um top ou a parte de cima de um biquíni são peças bem mais fáceis de trocar quando se esta a balançar de um lado para outro e não há privacidade nenhuma. É literalmente todos ao monte e fé em Deus. E não se esqueçam de levar toalhas e roupa quente para trocar. Feliz aventura.
https:/www.sharkdiving.co/cage-dive/3-shark-cage-diving.html

*Para quem saber mais sobre as estatísticas dos ataques de tubarões, deixo também o link:
www.floridamuseum.ufl.edu/shark-attacks/yearly-worldwide-summary/

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